Lei Seca por Drauzio Varela

por Drauzio Varella
Folha de São Paulo (Folha Ilustrada)
19/072008
GOSTO DE BEBER, e confesso sem o menor sentimento de culpa. Álcool, de vez em quando, em quantidade pequena, dá prazer sem fazer mal à maioria das pessoas. Aos sábados e domingos, quando estou de folga, tomo uma cachaça antes do almoço, hábito adquirido com os carcereiros da antiga Casa de Detenção. Difícil é escolher a marca, o Brasil produz variedade incrível. Tomo uma, ocasionalmente duas, jamais a terceira. Essa é a vantagem em relação às bebidas adocicadas que você bebe feito refresco, sem se dar conta das conseqüências. Cachaça impõe respeito, o usuário sabe com quem está lidando: exagerou, é vexame na certa.

Cerveja, tomo de vez em quando. O primeiro gole é um bálsamo para o espírito; no calor, depois de um dia de trabalho e horas no trânsito, transporta o cidadão do inferno para o paraíso. O gole seguinte já não é igual, infelizmente. A segunda latinha decepciona, deixa até um resíduo amargo; a terceira encharca.

Uísque e vodca, só tenho em casa para oferecer às visitas.

De vinho eu gosto, mas tomo pouco, porque pesa no estômago. Além disso, meu paladar primitivo não permite reconhecer notas de baunilha ou sabores trufados; não tenho idéia do que seja uma trava sutil de tanino, nem o aroma de cassis pisado, nem o frescor de framboesas do campo. Em meu embotamento olfato-gustativo, faço coro com os que admitem apenas três comentários diante de um copo de vinho: é bom, é ruim, e bebe e não enche o saco.

Feita essa premissa, quero deixar claro ser a favor da chamada lei seca no trânsito.

Sejamos sensatos, leitor, tem cabimento ingerir uma droga que altera os reflexos motores, o equilíbrio e a percepção espacial de objetos em movimento e sair por aí pilotando uma máquina na qual uma pequena desatenção pode trazer conseqüências fúnebres?

Ainda que você não seja ridículo a ponto de afirmar que dirige melhor quando bebe, talvez possa dizer que meia garrafa de vinho, três chopes ou uísques não interferem na sua habilidade ao volante.

Tudo bem: vamos admitir que, no seu caso, seja verdade, que você tenha maior resistência aos efeitos neurológicos e comportamentais do álcool e que seria aprovado em qualquer teste de resposta motora.

Imagino, entretanto, que você tenha idéia da diversidade existente entre os seres humanos. Quantas mulheres e quantos homens cada um de nós conhece para os quais uma dose basta para transtorná-los?

Quantos, depois de duas cervejas, choram, abraçam os companheiros de mesa e fazem declarações de amizade inquebrantável? Está certo permitir que esses, fisiologicamente mais sensíveis à ação do álcool, saiam por aí colocando em perigo a vida alheia?

Como seria a lei, então? Deveria avaliar as aptidões metabólicas e os reflexos de cada um para selecionar quem estaria apto a dirigir alcoolizado? O Detran colocaria um adesivo em cada carro estabelecendo os limites de consumo de álcool para aquele motorista? Ou viria carimbado na carteira de habilitação?

Talvez você possa estar de acordo com a argumentação dos advogados que defendem os interesses dos proprietários de bares e casas noturnas: “A nova lei atenta contra a liberdade individual”.

Aí, começo a desconfiar de sua perspicácia. Restrições à liberdade de beber num país que vende a dose de pinga a R$ 0,50? Há escassez de botequins nas cidades brasileiras, por acaso? Existe sociedade mais complacente com o abuso de álcool do que a nossa?

Mas pode ser que você tenha preocupações sociais com a queda de movimento nos bares e com o desemprego no setor.

A julgar por essa lógica, vou mais longe. Como as estatísticas dos hospitais públicos têm demonstrado nos últimos fins de semana, poderá haver desemprego também entre motoristas de ambulâncias, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, agentes funerários, operários que fabricam cadeiras de rodas, sondas urinárias e outros dispositivos para deficientes físicos.

No ano passado, em nosso país, perderam a vida em acidentes de trânsito 17 mil pessoas. Ainda que apenas uma dessas mortes fosse evitada pela proibição de beber e dirigir, haveria justificativa plena para a criação da lei agora posta em prática.

Não é função do Estado proteger o cidadão contra o mal que ele faz a si mesmo. Quer beber até cair na sarjeta? Pode. Quer se jogar pela janela? Quem vai impedir?

Mas é dever inalienável do Estado protegê-lo contra o mal que terceiros possam causar a ele.

[Reproduzido no Portal da ABRAMET em 22/7/2008: http://www.abramet.org.br/informacoes/noticiasVer.asp?id=1054 ]

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Eu sempre fico em dúvida quando há uma decisão generalista como a Lei Seca.

É assumido que todas as pessoas tem o mesmo comportamento diante da bebida e alguns perdem o “direito” de beber antes de dirigir simplesmente porque a maioria não tem a mesma resistência que ele…

Será que é justo??

No final de contas, eu acho que ela é válida sim. Como falado no texto do Drauzio, o governo não está fechando bares… Não está proibindo bebida… Só está impondo uma segurança maior para o cidadão de bem! Aquele que não comete excessos, mas mesmo assim no dia-a-dia ainda “paga o pato” nas ruas por causa de imprudência de terceiros…

Uma coisa mínima que definitivamente não ajuda é a popularização do apelido da lei.  Não existe “Lei Seca”, o que existe é “Lei Seca PARA MOTORISTAS”, o que é bem sensato…

Mesmo se essa perda de liberdade das pessoas seja para conseguir salvar uma vida humana que seja, ela já é bem-vinda e devia ser bem repensada. Pois se você soubesse de antemão que era a sua, você nem pensaria duas vezes em concordar com ela.

Psicologicamente falando, ela até ajuda a gente acabar com um mau conceito antigo. Ao invés de “Agora vai dirigir quem tem mais condição: Quem bebeu menos…” mudamos para “Agora vai dirigir alguém que não bebeu…”

Para finalizar, alguns efeitos colaterais positivos, que, para cidades como São Paulo, devem ser bem-vindos:

– Aumento do número de caronas e pessoas por carro;

– Diminuição da quantidade de carros;

Daqui a pouco, quando estivermos acostumados… Esse incômodo nem vai mais ser percebido e milhares de vidas serão salvas por uma lei que apenas era a oficialização do bom senso!

~ por einsteinnjr em 01/08/2008.

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